Viver em uma constante luta pela reconstrução de si mesmo, uma vida regada à renovação de idéias e conceitos, certa hora também leva a fadiga estes jovens ombros de velho. Ter aquela velha opinião formada sobre tudo, é cômodo, sim, e talvez condenável para aquele novo intelectual, aquele que acabou de sair fresquinho do forno da esquina, mas pode não ser deveras tão repugnante.
Olho-me, e vejo algo que não sou eu, como se eu sentisse saudades de uma vida que nunca vivi, que ainda não vivi. Como se a constante falta de algo, um sentimento de vazio existencial que tenta ser preenchido por qualquer coisa que se mostre parcialmente interessante à minha frente, mas que cambaleia – amaciado por estas faltas ilusões – mas não cai, não me deixa. Olhar e procurar em meus olhos uma visão que ainda não tive. Tentar ouvir uma voz, a palavra suave e doce de alguém que nunca ouvi. É como olhar o próprio rosto jovem e sentir falta de rugas, sentir falta de uma experiência que nunca existiu.
Triste ser assim, triste buscar algo que nunca chega. Parece que minha existência precisa ser homologada por alguém que eu não conheço, mas que desde que vida é vida, tento buscar substitutos. Ver nas pessoas uma centelha daquilo que busco, mas sem encontrá-la por completo. Existe tal heresia? Viver assim é fascinar-se com uma mente, com um pensamento a cada instante, e depois sentir aquela leve decepção de saber que tudo aquilo, toda aquela jovialidade intelectual, toda aquela pureza de pensamento bruto, não é bruto; catalizado é aquele pensamento fantástico por uma emoção, daquelas que o homem sente desde o mais primitivo urro de reconhecimento próprio. Entretanto, paradoxalmente, fico feliz. Apego-me as pessoas, e me felicita ver que são ‘normais’ – mesmo que façam de tudo para negá-lo. A felicidade de ver que não sofrerão mais do que aquilo que um sentimento lhe trouxe, e que a queda deste fato lhes fará deixar tais pensamentos fantásticos de lado e viver a vida como ela é supera a tristeza de não encontrar meus sequazes, se não encontrar aquilo que procuro em vão.
Por que motivo penso afinal? Pensar me destrói tanto quanto constrói a consciência do universo em mim. Queria, quero, não pensar mais. Ser alienado não dói, e não precisa-se ser alienado. Bastava que as grandes verdades só surgissem quando um furor sentimental me surgisse aos nervos. De qualquer forma não posso descartar a possibilidade de que isso é o que me acomete, e em verdade digo que acredito (ou seja mais fácil assim crer) que seja esta a grande solução. Também sofro de sentimentalismo, daqueles baratos de romance de papel-jornal, mas cujo ônus é ao saber-se por quem.
Talvez esse furor de uma mente que se considera insana não seja nada mais do que fruto de um simples amor profano, hedonista e vil, que não encontra caverna que o ecoe só. Apaixonar-se. Mas por uma voz que nunca ouvi, por um ser que nunca vi, pela suavidade de algo que nunca toquei.
Mas talvez, ainda, o que faltasse fosse apenas uma vida regada de profanações da própria existência, de viver somente aquilo que o mundo pudesse proporcionar, de sensações. Experimento, experimentei, não me satisfez. O mundo não me satisfez, a sua profanidade não me satisfez; e só deixou-me mais infeliz, como um viajante que erra a estrada e se encontra sem sequer saber onde está, que caminho tomar, sob uma leve garoa de dia frio.
Escura, escura estrada, que se apresenta longínqua, e grande, e espessa. É um caminho, e um viajante que para na estrada não é um viajante.
Mudar, porém, cansa. Viver assim é recriar-se constantemente, é nunca estar satisfeito, é estar em busca e não saber o que busca. É morrer e reviver várias vezes na vida, é reconstruir-se a cada momento. Desgastante, deveras necessário, mas esgotante. Por isso me pergunto que faço eu agora? Seguir o coração? Seguir a razão? Parece-me que os dois têm me levado pra lado algum, andando em círculos, cada vez maiores. Não criando nada, não destruindo nada. Transformando tudo, e novamente, e novamente.
Tédio.
Vinicius Neres
Concebido em 03 de Agosto de 2011, ás 21h05min.
P.S.: Se me faltavam provas de que os estados mentais são cíclicos, acho que melhores argumentos não existem que as próprias palavras.


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