Se uma coisa pode-se dizer, ou ao
menos eu possa afirmar de comum acordo com as minhas convicções, é que as
verdades se fazem de momentos. Pois senhores, como digo por ai e espalho aos
quatro ventos, e como de tal modo não poderia ser eu contraditório ao que virem
dizer à frente, nenhuma verdade é eterna, nenhum dogma é absoluto – e por isso
nenhum dogma é dogma. O dogma é uma ofensa a relatividade da verdade. As
verdades são, assim, frutos das construções de seus momentos. O momento em que
são construídas é que determina a sua validade, e assim uma afirmação pode ser
eternamente verdadeira, mas eternamente verdadeira dentro de seu contexto. Uma
verdade agora sempre será uma verdade agora, mas não significa que seja uma
verdade amanhã. Por razão disso, e por acreditar ter sido simples a compreensão
de tal afirmação já incessantemente tratada por mim – talvez não textualmente,
mas deveras verbalmente a qualquer um que queira assim ouvir – eu posso afirmar
que de forma alguma podem acusar-me de contrariar as minhas próprias
ideologias, o sistema de coisas a que creio. Não podem chamar-me de hipócrita,
pois aquilo que afirmo é condizente com aquilo que sigo, e absoluta essa
verdade se faz agora.
De fato pela própria natureza de
mutação e evolução de ideais, condizente com a idéia-prima de que as verdades
estão sempre em processo de relativização, talvez minhas atitudes não sejam as
mesmas sempre. Aquela metamorfose se estabelece, porque se faz necessária ao
processo de maturação de meu próprio ser, ao processo de consolidação daquilo
que sou – se é que, dentro dessa dinâmica toda de constante renovação, seja
possível estabelecer algum ponto de consolidação verdadeira. Tudo isso, vejam, configura-se como uma
manifestação de fidelidade de minha parte, uma fidelidade aos meus valores, construídos
não de forma dogmática, ignorante e imperativa. Muito pelo contrário, são
fundamentados em uma ampla observação dos seres humanos ao meu redor, das
atitudes evidentes que se repetem incessantemente à tendência do infinito, aqui
e em qualquer tempo. Humanos são sempre humanos, infelizmente, aqui e agora ou
na Grécia do século III a.C.. Sad, but true.
A coisa é que essa própria
afirmação é contrária a algo que eu sempre acreditei possível, e eu sempre
acreditei poder fazer assim. Acreditei que era possível, desde imemoriais
tempos – que, vejam, nem são tão distantes assim, mas somente cuja exatidão extinguiu-se
da memória – fazer diferente, ser diferente. Ser humano, mas não ser humano.
Tão humano. Demasiado humano. Creio que isso foi um primeiro sinal pra entender
e ver quantos paradoxos existia naqueles meus pensamentos todos. E são muitos, mas que não vêm ao caso
citá-los. Apenas afirmo a vós, com uma precisão quase cirúrgica, de uma conclusão
mais simples do que possa parecer a primeira vista, que todos esses pensamentos
se organizam de uma forma, em partes, muito próxima da visão de mundo de Platão.
Platão pensava em um universo
dual, na existência de dois mundos: o Mundo Físico, nosso mundo, onde ocorrem todas
as manifestações físicas e materiais de que temos contato diariamente em nossa
vida; manifestações essas que seriam uma mera sombra da real essência pura e
ideal de cada um deles. Essa essência se encontraria em um segundo mundo, o
Mundo das Idéias. Lá tudo seria ideal, perfeito, a forma para as manifestações
de nosso mundo. Assim, por exemplo, todos os tipos de cachorro existentes no
mundo seriam apenas manifestações imperfeitas de um cachorro verdadeiro somente
atingível no mundo das idéias. Seres humanos idem. Toda essa história é muito
bem representada pelo famoso Mito da Caverna de Platão, que não convém
descrever agora. Tenha-o como intertextualidade. Eis, então, que os paradoxos que se estabelecem
em meus pensamentos obedecem a essa regra platônica desde suas concepções,
mesmo que eu mesmo não tenha me apercebido disto antes. Eles existem sempre em
duas formas, a do Mundo das Idéias, onde são concebidas e são perfeitas, como
perfeitos moldes dos quais tentamos nos aproximar; e no Mundo Físico, na
realidade, onde as coisas obedecem a suas regras próprias.
Pode-se pensar, em primeiro
momento, que eu não precisava de tudo isso pra dizer uma coisa tão simples: uma
coisa é a teoria e outra é a prática. A questão é que não é tão simples assim,
porque não foi isso que eu quis dizer. O Mundo das Idéias já não é um mundo
teórico, nem mesmo na teoria de Platão. O Mundo das Idéias é um mundo real, que
acontece na prática, mas que não pode ser atingido pelo Mundo Físico enquanto
seus agentes continuarem a guiar suas ações e duas vidas pelas sombras da
caverna, pela simples manifestação imperfeita dos ideais. Deixando claro que
isso foi somente uma analogia, também registro aqui que não sou tentado a
concordar com Platão sobre esse assunto, principalmente no que tange ao físico –
pois veja, ele realmente acreditava naquela história do cachorro verdadeiro e
de suas manifestações imperfeitas e eu certamente não. Nesse caso, sou muito
mais Aristóteles e sua compreensão de que o mundo é aquilo que é, que vemos e
experimentamos com nossos cinco sentidos, e ponto. Assunto para outra hora,
enfim. A coisa, na prática, é assim: os humanos são tão imperfeitos, tão
demasiadamente humanos, que nem sequer guiam suas vidas com um objetivo
diferente em vista, pois sendo predominantemente – se não totalmente – de tal
modo, iguais e previsíveis, não têm para si outro guia que não essa
previsibilidade.
Confuso? Vamos tentar organizar
isso em uma idéia só. Os seres humanos estão tão acostumados a viverem entre
seus semelhantes, que repetem atitudes já reproduzidas infinitamente por
aqueles que o precederam, que não se preocupam em ter como guias modelos que
transcendam essas atitudes primitivas de agirem sempre da mesma forma, sempre
iguais. Não tem a ver com serem perfeitos e imperfeitos, tem a ver somente com
serem diferentes. A analogia com Platão é pela dualidade, e pela forma como
meus pensamentos se dividem em como eles são aplicados na prática, e como eles
são aplicados se as pessoas mudassem suas atitudes em relação ao mundo. Claro,
com aquele juízo de valor indispensável à qualquer analogia, a permanência nos
velhos ideais e modelos seria guiar-se pelas sombras, pelas manifestações
imperfeitas; mas a mudança de atitude seria a transcendência ao Mundo das
Idéias, onde as coisas funcionariam da forma perfeita. Assim, aplicar essas
idéias ao mundo prático é ter que adaptá-las as distorções da não-adaptação à
aceitação de atitudes ideais. A aceitação de que se pode fazer diferente, e não
ter como moldes somente a previsibilidade e a repetição de atitudes ad
infinitum.
E depois de toda essa embromação,
de todo esse Platão, de toda essa confusão, você pode estar se perguntando “Mas
e ai, o que isso tem a ver com o tal do não abandonar idéias?”. Simples meu
amores, eu ajo conforme minhas idéias e tendo em vista que podemos, sim, fazer
diferente. Acreditando que podemos nos libertar dessa humanidade estúpida de
reprodutores de velhos paradigmas, meramente adaptados às particularidades de
nosso tempo e de nossos valores. Sou fiel ao que acredito, e por isso não posso
ser chamado de hipócrita por isso. Meu guia é a crença no novo. Obviamente,
dizer que sou imune a esse sistema de atitudes comuns humanas – que permite
que, por exemplo, mesmo cinco séculos depois de escrito, possamos aplicar “O
Príncipe” de Maquiavel de uma maneira tão perfeita quando nos tempos em que foi
concebida – seria muita presunção da minha parte. Apesar disso, digo-lhes,
queridos: sou recompensado dia após dia por uma mera atitude banal de
acreditar. E se não visse, lá no fundo, em pequenas atitudes de mentalidades
que levam consigo aquela pequena luz que almeja pela liberdade, a chama
fundamental para acender essa fogueira de revolução... Tenham certeza, eu não
continuaria nessa loucura. E enquanto ainda houver essa chama, ainda eu possa
vê-la, ainda continuarei acreditando. Só espero que haja, no inconsciente de
cada um desses, a vontade gritante de romper o casulo. Ainda existem outros
universos além da casca de noz. Talvez valha a pena. Se não tentarmos, nunca
saberemos.
V. Neres

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