Um jovem rapaz caminhava errante por um longo e sombrio caminho. Levava consigo sua espada ricamente cravejada. Cabo da mais pura prata já extraída das profundezas da terra, com diamantes e rubis encrustados. Lâmina bem polida, espelhada, a ponto de ter-se um reflexo quase perfeito daquilo que em sua lâmina buscava uma imagem aproximada. A espada era o que de mais valioso portava. Suas vestes eram simples, e carregava consigo somente uma bolsa com mantimentos... Estranhamente, mesmo depois de muito tempo de caminhada árdua, não sentia fome nem sede.
Já estranhava, pois há um bom tempo as necessidades de seu corpo já não o incomodavam. Seguia em frente, na estrada sombria à sua frente, no caminho de pedras, em meio a floresta úmida, gélida e escura. A partida lhe parecia tão distante, e os anos haviam passado tanto, que nem sequer se recordava de quando partira, nem de porque partira. Aliás, nem se recorda de ter partido. Sua última lembrança era de um longo pouso de descanso em uma estalagem, donde havia recarregado duas forças com boa alimentação e vistosas noites de sono profundo. Desde lá suas necessidades gerais pareciam ter cessado. Caminhava sem rumo, com a cabeça vazia, completamente. Nenhum pensamento o assolava, e somente a busca automática de um destino incerto o movia, sempre em frente. Não sabia de onde vinha, nem para onde iria... Só tinha certeza que ia, e ia, e ia.
E fois-e assim, sabe-se lá há quanto tempo, e por quanto tempo, em busca de seu destino. Queria ele mesmo fazer o seu destino, por isso partira. Ou pelo menos achava que era por isso, apesar de não pensar em nada. Essa já era uma certeza pronta em sua própria mente. Realmente, sem exajeiros, não se lembrava de ter partido. A lembrança mais antiga que tinha era a de estar andando pela mesma estrada de sempre.
Chegou enfim, se é que se pode classificar tal fato como uma chegada, à uma bifurcação. Na verdade chamava assim de bifurcação por desconhecer que bifurcação refere-se à dois caminhos. Na verdade a estrada, enfim, dividia-se em sete outras estradas. ‘Estranho, muito estranho’ pensou ele. Nunca havia encontrado caminhos diferentes para seguir que não fossem óbvios de escolher. Seguia o seu instinto, o seu coração, a sua consciência, e nunca temia estar desorientado. Dessa vez era diferente, porém. Não via em nenhum caminho uma escolha aconselhável à seguir, não conseguia escolher. Ali, porém, entre o sexto e o sétimo caminho, havia uma cabana, aparentemente abandonada. Achou prudente ficar ali, e assim não teria que escolher.
Encontrou naquela cabana um lugar aconchegante, apesar de aparentar anos de abandono. Uma velha cadeira de balanço quebrada, uma lareira com alguns velhos galhos de pinheiro desajeitados. Tinha dois cômodos somente, mas era aconchegante do seu jeito desajeitado de ser. Ali ficou, e todas as manhãs saia para fora e olhava para aqueles sete caminhos, sem ter sequer uma nesga de desejo de seguir por qualquer um deles. Arrumou a velha cadeira, limpou a velha cabana, sentou-se e poliu a velha espada. E ali permaneceu, rogando sempre sabedoria para poder escolher que caminho seguir.
Não tardou a baterem em sua porta. Um rapaz, em um dia normal como todos aqueles que sempre foram, pedindo ajuda. Queria chegar à uma cidade onde comprariam a lã das ovelhas que criava, e não sabia que caminho seguir. O jovem morador da cabana, um pouco envergonhado, não sabia como dizer-lhe que não conhecia nem sequer um dos caminhos que se apresentavam á frente. Sentiu, porém, certa vontade de indicar-lhe o 4º caminho, da esquerda para a direita. Pensou consigo que, de qualquer forma, o rapaz que lhe batia a porta também não tinha noção nenhuma de para onde ir, e pensou que não seria mal dar-lhe um norte. Pensou consigo, e misturou um pouco de sinceridade – coisa que lhe custava perder – e a vergonha de não poder ajudar. Disse então ao jovem viajante “Amigo, verdadeiramente não sei com exatidão que caminho deves seguir. Mas pressinto que deverá ter bom sucesso ao seguir o quarto caminho, contando da esquerda. Temo dar-lhe um palpite assim ás cegas, mas peço que considere. Caso o infortúnio do engano me seja reservado, poderás voltar aqui e terás pouso e alimento à vontade para compensar minha falta de zelo”.
Seguiu assim o o viajante, e o jovem hospedeiro da cabana permaneceu ali. Esperando sempre bater à sua porta aquele outrora perdido, permaneceu por dias... Até que aquele voltasse. E quando voltou, foi o agradecimento que veio consigo. Tinha realmente achado um mercado de lãs tal qual assim o queria, e agradecia muito ao sábio homem que o havia indicado o caminho. Desconfiado, mas contente pela ajuda que dera, o morador da cabana insistiu em hospedar o jovem rapaz, que ali permaneceu por uma pernoite, e logo pela manhã seguinte partiu. Logo voltou o homem à observar os sete caminhos à sua frente, mas nada lhe surgiu.
Com o tempo acostumou-se à seu estado. Tirava da floresta tudo para o seu sustento, e cada vez mais frequente eram aqueles que buscavam esclarecimentos sobre que estrada seguirem, e voltavam agradecendo à indicação do morador da cabana. Nunca teve coragem de seguir qualquer caminho que fosse, e verdadeiramente nunca conhecera nenhum dos caminhos que indicava. Surpreendia ao homem que suas previsões nunca falhassem. Mesmo assim, todos os dias, rogava à Deus a sabedoria de saber que rumo tomar.
Passaram-se os anos, e o jovem envelheceu, muito mais do que imaginava envelhecer. Com o tempo a velha espada polida que levava consigo passou a ser sua bengala de apoio para caminhar. Agora parecia que os viajantes eram cada vez mais frequentes, e a lenda do sábio que guardava os sete caminhos parecia ter espalhado-se aos sete cantos do mundo. Era tido como um sentinela, aquele que tudo sabia. Aquele que sabia que caminho deveria seguir até para aqueles que não tinham destino à chegar. Mesmo assim, continuava o jovem ancião sem conhecer nada, mas sabendo de tudo. Sempre com uma estranha intuição. Pelas manhãs ainda rogava pela sabedoria de saber para onde seguir, apesar de já ter perdido ás esperanças.
Certo dia, para a surpresa do ancião, uma menina apareceu em sua porta. Estava voltando da caça, e a menina estranhamente não olhava para a casa, mas ficava o olhar exatamente de onde vinha o morador da cabana, como se soubesse que de lá ele viria. Cumprimentou-a com um sorriso, mesmo que com estranheza. Não deveria ter mais do que 11 ou 12 anos. Perguntou-lhe o que desejava, assim como o fizera à todos aqueles visitantes desde os mais remotos tempos. A resposta o surpreendeu.
‘Pois diga-me você meu jovem o que queres... Pois a mim chamas há tanto tempo que creio que nem saberás mais o que tu mesmo queres’, disse com sagacidade. Não só o fato de ter chamado de ‘meu jovem’ estranhou o ancião, mas também a sinceridade com que os olhos lhe traziam. Tinha olhos verdes como a mata que os cercava, e espessos cabelos negros que passavam levemente dos cotovelos. Não havia outra pergunta se não à de saber quem era aquela menina. Respondeu então a jovem que seu nome era Sophie, e que era ela a própria Sabedoria. O homem riu, mas a menina permaneceu com um suave e bondoso riso no rosto. Para a maior estranheza do homem, parecia que era sincera. Convidou-o para caminharem.
‘Tu tens por tanto tempo pedido por meu auxílio, que me compadeci de ti. Teus pedidos são sinceros, e sois um homem bom. Acolhes todos estes hóspedes com tanto afeto, e mostrou-lhes sempre aquilo que consideravas sincero, que a tua sinceridade e bondade por fim mostraramte digno de conhecer aquilo que fazes, e compreender o que rogaste tanto’. Caminharam então, e seguiram um dos caminhos... Sempre em frente.
Enquanto seguiam a menina explicava-lhe que nunca envelhecia, que sempre se renovava. Fez-se saber que era bem distinta do conhecimento, sujeito alto e bem apessoado, com uma postura de Lorde, mas que por vezes andava em más companhias, e quando acompanhado das damas Arrogância e Intolerância, era impossível de se lidar. Mas era um sujeito bom por natureza, só tinha o comportamento inconstante.
Caminharam por um longo tempo até, surpreendentemente, chegarem à velha cabana já conhecida do ancião. Ficou confuso. Ela convidou-o para trilhar outro caminho, e assim foram... E por todos os caminhos que trilharam, chegavam sempre à cabana aconchegante de outrora. Explicou-lhe: ‘Tua consciência não te guiaste mais por um simples motivo: eis que aqui encontra-se tua verdadeira missão. Todos os caminhos te levarão à esta cabana, pois está cabana é o que tu procuraste desde o início de tua vida, desde que partiras de tua longínqua origem em busca de ti mesmo. Aqui encontras-te ti mesmo, e aqui é o teu lugar. Muitos andam sem rumo por esta estrada, e estes que aqui buscam em ti uma opinião de para onde seguir desconhecem uma verdade tão antiga quanto a própria humanidade: todos buscam o mesmo destino, mas para ele seguem por caminhos diferentes. Não importa que caminho seguirão, chegarão sempre ao mesmo local. A grande questão é que a maneira que vêem este local é que difere um dos outros, pois o mundo é o resultado da interpretação que fizemos dele. Todos buscam a harmonização e a realização, e as vezes chegam à um ponto em que sentem-se desnorteados, sem saber por onde seguir. Eis que tu é o guia delas, mas à elas não importará que caminho seguirão, pois chegarão mesmo assim... Mas nessas horas necessitam de alguém que lhes dê descanso, que lhes dê apoio. Que ouça suas lamentações e lhes mostre um caminho, mesmo que tu mesmo não saibas que destino ele reservará, mas mesmo assim chegarão ao seu destino primeiro, felizes por essa conquista. Tu és um guia, um iluminador de destinos, o velho amigo perdido que lhes dará conforto e segurança. Se todos os caminhos que trilhas te trazem à esta cabana novamente, e tua consciência te faz permaneceres aqui, é porque esta é a tua realização, está é a tua felicidade. O dia que forem infeliz neste teu ofício, poderás seguir o caminho que queiras, pois ele te levará à tua felicidade e a tua realização. Não és obrigado à nada, e não tens isso como destino. És teus destino ser feliz, como é o destino de cada um que por aqui já passou. Agora que sabes a verdade, poderás partir por livre razão, não somente guiado pelas tuas emoções. Sei, porém, que o tempo já te mostraste que tua consciência é a melhor guia de teu caminho. E se não és feliz onde estarás, o caminho te levarás à esta felicidade, esteja ela onde for’.
Assim partiu a velha menina sabedoria. O ancião foi até o lado de fora de sua cabana, e mais uma vez olhou aos sete caminhos que se dispunham à sua frente. Olhou para sua velha cabana, e mais uma vez resolveu seguir um dos caminhos... Juntou o que lhe restava, mas abandonou a espada. Só mantimentos e suas velhas vestes de caçador, como por precaução. Seguiu o caminho, e caminhou por um longo tempo... Caminhou no ritmo que sua senilidade lhe permitia, e continuou caminhando. Lembrou de todo o tempo que passou ali, das pessoas que ajudou, da cabana que preparou, e de repente, sem muitos passos, mesmo com todos aqueles trajes e mantimentos de viajem, avistou sua velha cabana novamente. Deixou as coisas de lado, sentou-se em sua velha cadeira de balanço e pensou consigo ‘Pois se há felicidade verdadeira nesse mundo é a de iluminar o caminho de alguém que dessa luz necessita. É trazer a felicidade verdadeira à alguém, nem que seja só por um palpite confortante’. Assim adormeceu tranquilo o velho sentinela dos sete caminhos, com a certeza de que, se um dia esta não fosse mais sua fonte de felicidade, poderia encontrá-la por qualquer caminho que seguisse. E assim será.
Vinicius Neres
Concebido na madrugada de 30/12/2011, finalizado às 03h56min.


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