Pessoa. Personagem. Persona. Per sona – por onde soa. Tal quais
as antigas máscaras de teatro, objeto pelo qual ressoava a voz do ator ao
interpretar um papel, a pessoa, ente abstrato, desconhecido, subjetivo e sutil,
é a máscara por onde soa a voz de nosso ego. Ego no stricto sensu: ego como eu,
verdadeiro eu. Interessante conotação, apesar de eu já não querer falar mais
sobre máscaras. Cansou, mesmo. A pessoa, persona, pois, desde a longínqua
antiguidade foi a máscara; mas mais do que máscara foi o instrumento para
potencializar a voz do ator. A máscara é que dá voz ao ego. E assim o é.
Muitas pessoas passam grande parte da vida – tal como eu,
apesar de temporalmente irrisória existência material – pensando na vida. Pensando
em qual seria o seu sentido, em que diabos estou fazendo aqui. E lá se vão
horas e horas, meditando, sentado no sofá olhando para o teto, babando no
travesseiro da cama, queimando neurônios e mais neurônios inocentes em busca do
sentido da vida. E não fazendo nada. “Fecha a boca se não entra mosca”. Que
bela existência teórica essa. Fria. Outras pessoas, veja só, simplesmente fazem
as coisas. Acordam, estudam, comem, andam, namoram, se divertem, quem sabe
pensem na vida – mas só por distração. Enquanto isso eu, você, o Papa Bento XVI
(tomara Deus!), qualquer outro que pode ser qualquer um, estamos ainda no sofá,
olhando o teto branco, o inseto que vai chegando perto da lâmpada e prestes à
morrer (para isso se tornar somente mais uma questão existencial: porque os
insetos se suicidam assim na luz, o pá?). E lá se vão mais horas e horas, e
horas.
Enquanto isso duas guerras mundiais, Papa morre, Papa eleito, vários fins do
mundo fracassados, Copas do Mundo (pff), novo programa de TV com zumbis, 140
caracteres... E agora a reflexão é sobre o exoesqueleto de quitina da mosca
morta. Mosca morta. É assim que falam de você. Mosca morta.
“Não sei quem sou nem que almas tenho, sou uma eterna crise de existência.” E
faculdade, e gestão de amigos, e gente, e carências de todos os tipos e
gêneros, e carências supridas com um piscar de olhos, e uma lembrança, e vários
esquecimentos. Mas outros só vivem. E respiram, e namoram, e comem, e dormem, e
estudam, estudam, estudam, e produzem. PRO-DU-ZEM, isso mesmo. Produzem. E lá estou
você, eu, o Papa Bento XVI, olhando para o teto branco, para a luz, para o
inseto voando para a luz, e pensando em qual o sentido da vida. Ou melhor, sendo
bem sincero, pensando em nada. Nada. Para de lavar a louça, para sentar e pensar
em nada. Desliga a TV para sentar e pensar em nada. Acorda para sentar e pensar
em nada. Quando acorda. Porque realmente, na real, dorme. Enquanto isso um
zumbi escreveu um guia de sobrevivência no mundo dos vivos. Enquanto isso uma
mula sem cabeça lançou novos cortes de cabelo para a próxima estação. Enquanto
isso um leão-marinho escreveu um novo tratado sobre dialética. Enquanto isso
alguém te diz “se você continuar desanimado assim vai perder tua posição”.
Posição. Rá! Quem me dera saber ao menos uma posição. Esquerda ou Direita. Em
cima ou em baixo. De lado, de... Enfim.
Tudo se definiria como frustração, se essa palavra não fosse
tão estúpida e errada, porque não é frustração. É simplesmente um tedioso,
grandioso, enormemente espalhafatoso e carnavalesco nada. E nada e só. Nem
texto, nem literatura, nem reclamação, nem crítica, nem nada. Tudo se resume em
um grande nada. E ainda me vêm com essa: “A vida é um sopro, um minuto. A gente
nasce, morre”. Para quem já morreu vivendo é fácil... Difícil é viver amigo,
difícil é viver...
Vinicius Neres


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