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Vinicius Neres
depois que Fernando Pessoa cansou, depois que os eus postiços morreram, depois que a mistura já não era homogênea, depois que a máscara passou a servir tão bem que já não era máscara, e que o alter-ego era só um jeito de negar a verdadeira natureza camaleônica do próprio ser... Mesmo que não uma metamorfose ambulante, mas também não aquela velha e besta opinião formada sobre tudo, Vinicius é aquilo que é. É tudo, e de tudo se fez nada.
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Uma fusão de idéias, textos próprios, textos lidos, opiniões, editoriais, cartas, poemas, crônicas e coisas, tudo sintetizado nesse pequeno espaço. Em suma: Meu arquivo pessoal.

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Triste verdade

"O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro."

Mário Quintana






Ah, Mário, Mário... Tenho a leve impressão que isso já esteja acontecendo.

Algo sobre mim

Algo sobre mim

Ad astra per alia porci

Uma síntese de ídeias desconexas, condensadas em palavras que nunca refletem exatamente a complexibilidade de sua reflexão máter. Essa é a definição disso. Essa é a definição de um texto de opinião. Se alguem definir melhor, por favor, me avise. Definir é delimitar, e tudo que é delimitado nunca é exatamente aquilo que é.

Jardim

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Às vezes me sinto como um grande jardineiro. Cultivando plantas, cultivando flores, fazendo podas e adubando solos; modificando a natureza de uma maneira tal que o artificial se cumpra de maneira natural. De fato, um trabalho que exige paciência e dedicação. Mais ainda do que isso é preciso sutileza e sensibilidade para perceber as necessidades de cada espécime exige, o quanto de luz, de água e de alimento necessitará. Uma arte, a arte de tratar a natureza... Sem deixar que essa arte interfira na maneira natural de a natureza fluir. Sabe bem, pois, o bom jardineiro, que nem sempre a sua vontade pode se fazer cumprida, pois a natureza é mãe primeira, e nela devemos estar em harmonia. Os limites do homem são os limites da mãe-terra, e devemos respeitá-los.

Pois então, assim se sucede. Mesmo aquela bela planta, cultivada com tanto carinho e dedicação, para qual um vaso especial foi escolhido para plantá-la, é serva da natureza.  Mesmo a mais bela flor, a mais rara espécime, a mais cuidadosamente cuidada, precisa respeitar as regras que a natureza lhe impõe. Esta é, portanto, a arte do jardineiro: saber cultivar a planta, conhecendo-lhe a natureza e as necessidades, e ajudando a planta a ter suas necessidades sanadas. E nesse ínterim, talvez aquela flor cuidada com tanto carinho, dedicação e afeto, no querido vaso escolhido com a alma, talvez para sobreviver necessite estar em um jardim, junto às outras flores, em um convívio harmonioso que, mesmo sendo especial, a fará parte de um todo muito mais complexo que sua unidade. E o jardineiro, conhecedor das necessidades de suas plantas, conhecedor da natureza delas, fará o que a natureza deseja... E transferirá a linda planta ao comum jardim.

Às vezes me pergunto se pessoas não são como plantas, e nós, que tratamos com elas cada dia, não somos como jardineiros. Obviamente não acho que possamos reduzir as pessoas à simples representações, mas peço que me deem a licença poética para essa comparação. Sei que pessoas não são plantas, não são objetos, não são colecionáveis... Mas não deixam de ser como plantas. Amigos, família, colegas... Alguns fazem parte de um grande jardim, de uma grande massa. Alguns outros, porém, são tratados com carinho. São relacionamentos regados, cultivados, e alimentados de acordo com suas necessidades. Não podemos controlas esses relacionamentos sem nos submeter às regras da natureza: tudo pode ser melhorado, assim como esquecido e negligenciado, mas nunca poderá ser imperativamente do jeito que queremos. As pessoas são regidas pela natureza de si, e pela natureza da própria humanidade, queiramos nós ou não.

Assim como o jardineiro que, com pesar, por vezes necessita deixar que aquela planta cuidada com tanto carinho e dedicação seja incluída em um jardim para que se harmonize com as outras plantas e sua necessidade seja suprida, assim talvez, algumas vezes, precisamos deixar que aqueles que gostamos sejam inseridos no grande jardim humano, junto às plantas comuns. Certamente a dor dessa decisão nos pesa, e nos faz pensar se não haveria outro modo de fazer o bem e permitir o desenvolvimento pleno dessa querida plantinha de outro modo se não por essa profanação de sua nobreza. Pois não, queridos, não haverá outro modo. As coisas são como são, e a natureza é sábia, pois é mãe de todo o universo. Assim como as plantas às vezes necessitam de um jardim, assim uma nobre alma, uma nobre amizade, às vezes precisa da massa.

Dito assim talvez eu fosse crucificado pelos intelectuais enlatados, desses que se produzem aos montes dia por dia nas esquinas do conhecimento. Mas não me importo nem um pouco em ser um modelo de intelectual, só me importa conhecer as pessoas e conhecer à mim mesmo. Dado isso, meu compromisso é com a felicidade, e não com o velho discurso acadêmico formal. Afinal, o conhecimento também é obra do Demiurgo... A intuição e a sabedoria pura é que são manifestações de nossa centelha divina, independente se tu assista a Globo ou não. O ouro reluz dentro de cada um de nós, cabe deixar que a dama nos guie pela senda. De qualquer forma, não condeno ninguém que necessite da massa, e nem direi, como já diversas vezes outrora, que é simples e cômodo viver a ilusão. De fato é, mas quem sou eu para condenar a natureza das coisas?


Só quero ser como um jardineiro, conhecendo a natureza e a necessidade de cada planta, seja nos vasos cultivados com cuidado, seja nos jardins que, por harmonia e zelo do jardineiro, expressam uma beleza muito maior do que o desabrochar de uma única flor. Bem ou mal, as belas flores sempre se destacam no jardim, mesmo no meio das vulgares. Antes uma bela flor exalando beleza e perfume, mesmo em um profano jardim, do que vê-la sucumbir por ser-lhe negado o direito à sua natureza.

Enquanto isso, fico no vaso no meio do jardim, no paradoxo daqueles que se prestam ao eterno processo de tornar-se aquilo que são. Degrau por degrau, de vagar. De vagar. Divagando.

Vinicius Neres

Postado por Vinicius Neres às 02:00  

Marcadores: Textos próprios

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