Às vezes me sinto como um grande jardineiro. Cultivando plantas,
cultivando flores, fazendo podas e adubando solos; modificando a natureza de
uma maneira tal que o artificial se cumpra de maneira natural. De fato, um
trabalho que exige paciência e dedicação. Mais ainda do que isso é preciso
sutileza e sensibilidade para perceber as necessidades de cada espécime exige,
o quanto de luz, de água e de alimento necessitará. Uma arte, a arte de tratar
a natureza... Sem deixar que essa arte interfira na maneira natural de a
natureza fluir. Sabe bem, pois, o bom jardineiro, que nem sempre a sua vontade
pode se fazer cumprida, pois a natureza é mãe primeira, e nela devemos estar em
harmonia. Os limites do homem são os limites da mãe-terra, e devemos respeitá-los.
Pois então, assim se sucede. Mesmo aquela bela planta, cultivada
com tanto carinho e dedicação, para qual um vaso especial foi escolhido para
plantá-la, é serva da natureza. Mesmo a
mais bela flor, a mais rara espécime, a mais cuidadosamente cuidada, precisa
respeitar as regras que a natureza lhe impõe. Esta é, portanto, a arte do
jardineiro: saber cultivar a planta, conhecendo-lhe a natureza e as
necessidades, e ajudando a planta a ter suas necessidades sanadas. E nesse ínterim,
talvez aquela flor cuidada com tanto carinho, dedicação e afeto, no querido
vaso escolhido com a alma, talvez para sobreviver necessite estar em um jardim,
junto às outras flores, em um convívio harmonioso que, mesmo sendo especial, a
fará parte de um todo muito mais complexo que sua unidade. E o jardineiro,
conhecedor das necessidades de suas plantas, conhecedor da natureza delas, fará
o que a natureza deseja... E transferirá a linda planta ao comum jardim.
Às vezes me pergunto se pessoas não são como plantas, e nós, que tratamos com
elas cada dia, não somos como jardineiros. Obviamente não acho que possamos
reduzir as pessoas à simples representações, mas peço que me deem a licença
poética para essa comparação. Sei que pessoas não são plantas, não são
objetos, não são colecionáveis... Mas não deixam de ser como plantas. Amigos,
família, colegas... Alguns fazem parte de um grande jardim, de uma grande
massa. Alguns outros, porém, são tratados com carinho. São relacionamentos
regados, cultivados, e alimentados de acordo com suas necessidades. Não podemos
controlas esses relacionamentos sem nos submeter às regras da natureza: tudo
pode ser melhorado, assim como esquecido e negligenciado, mas nunca poderá ser
imperativamente do jeito que queremos. As pessoas são regidas pela natureza de
si, e pela natureza da própria humanidade, queiramos nós ou não.
Assim como o jardineiro que, com pesar, por vezes necessita deixar que aquela
planta cuidada com tanto carinho e dedicação seja incluída em um jardim para
que se harmonize com as outras plantas e sua necessidade seja suprida, assim
talvez, algumas vezes, precisamos deixar que aqueles que gostamos sejam
inseridos no grande jardim humano, junto às plantas comuns. Certamente a dor
dessa decisão nos pesa, e nos faz pensar se não haveria outro modo de fazer o
bem e permitir o desenvolvimento pleno dessa querida plantinha de outro modo se
não por essa profanação de sua nobreza. Pois não, queridos, não haverá outro modo.
As coisas são como são, e a natureza é sábia, pois é mãe de todo o universo.
Assim como as plantas às vezes necessitam de um jardim, assim uma nobre alma,
uma nobre amizade, às vezes precisa da massa.
Dito assim talvez eu fosse crucificado pelos intelectuais
enlatados, desses que se produzem aos montes dia por dia nas esquinas do
conhecimento. Mas não me importo nem um pouco em ser um modelo de intelectual, só
me importa conhecer as pessoas e conhecer à mim mesmo. Dado isso, meu
compromisso é com a felicidade, e não com o velho discurso acadêmico formal.
Afinal, o conhecimento também é obra do Demiurgo... A intuição e a sabedoria
pura é que são manifestações de nossa centelha divina, independente se tu
assista a Globo ou não. O ouro reluz dentro de cada um de nós, cabe deixar que a
dama nos guie pela senda. De qualquer forma, não condeno ninguém que necessite
da massa, e nem direi, como já diversas vezes outrora, que é simples e cômodo
viver a ilusão. De fato é, mas quem sou eu para condenar a natureza das coisas?
Só quero ser como um jardineiro, conhecendo a natureza e a necessidade de cada
planta, seja nos vasos cultivados com cuidado, seja nos jardins que, por
harmonia e zelo do jardineiro, expressam uma beleza muito maior do que o
desabrochar de uma única flor. Bem ou mal, as belas flores sempre se destacam
no jardim, mesmo no meio das vulgares. Antes uma bela flor exalando beleza e
perfume, mesmo em um profano jardim, do que vê-la sucumbir por ser-lhe negado o
direito à sua natureza.
Enquanto isso, fico no vaso no meio do jardim, no paradoxo
daqueles que se prestam ao eterno processo de tornar-se aquilo que são. Degrau
por degrau, de vagar. De vagar. Divagando.
Vinicius Neres


