Por vezes me pego pensando sobre assuntos aleatórios; idéias que surgem, e que deixam a centelha de sua origem ali, em minha mente, crescendo e se multiplicando. Como um fruto que amadurece, pouco a pouco, essas idéias passam a unir-se e a multiplicar-se, somando-se à idéia original e desenvolvendo-a. Há não muitos dias me surgiu, em um momento de silêncio – e como geralmente as idéias vêm a mim pelo silêncio – uma reflexão sobre o medo. Escutamos muito constantemente falar-se sobre isso quando falamos de segurança. Seja essa segurança relacionada ao nosso bem estar pessoal, à nossa vida cotidiana, ou a própria estabilidade social-financeira de que muitos classificam dessa forma. Medo. O mundo teme por si mesmo, teme por estar destruindo o seu próprio estilo de vida, teme por ser um modificador daquilo que ele mesmo cria e idealiza. Teme, simplesmente teme, e vive com esse medo ligado a si.
Já me falaram, certa vez, que o medo nada mais seria do que uma reação natural de nossa mente a aquilo que nos faça mal. De fato o conceito pode ser visto com essa mesma concepção por outros pontos de vista. Tememos perder um amigo, um amor, nossa família... Nosso status. De fato tudo isso nos faz mal, nos traz algo que não entendemos como agradável. Teme-se a morte, temem-se assaltos, teme-se o perigo. Viver com o medo, de certo modo, é algo que aprendemos desde cedo, desde que nossa consciência aflora em nosso ser. Mas e tem sentido todo esse medo?
A grande questão é que os seres humanos têm passado a viver, por razão desse medo de tudo e de todos que nos rodeiam, constantemente na defensiva. As amizades não são mais feitas do modo antigo por medo de que toda aquela simpatia vinda do alheio esconda interesses não declarados. Não se arrisca mais comprometer-se amorosamente como antigamente, temendo que, da mesma forma, esse amor traga interesses ocultos. Não se sai mais tranquilamente as noites para admirar o céu, as ruas, as estrelas, as luzes, por medo da violência. Tornamo-nos escravos do medo?
Como disse, o ser humano tem criado e destruído o seu próprio universo a cada dia, reformando conceitos, claro, mas também reformando o próprio meio onde vive. Aos poucos temos nos tornado escravos de nossas próprias escolhas, de nossa dita vida “civilizada” de sociedade. Um mundo individualista. Cada dia a unidade é mais valorizada, em detrimento do conjunto.
No fundo sabemos que todo o ser humano deseja sinceramente poder confiar nas pessoas a sua volta, deseja poder se entregar aos detalhes de sua vivência cotidiana; mas o medo nos impede. Existe maneira de nos tornarmos menos temerosos, menos defensivos com relação à nossa própria sociedade? É difícil responder. Nós mesmos construímos, dia após dia, uma sociedade em que se busca, justamente em razão de tal individualismo desenfreado, o parecer superior a todos, o destaque acima de qualquer coisa, a fama, o dinheiro, o poder. Sabemos que a gênese de cada mudança de inicia na interioridade de cada ser. A busca desenfreada por ser o melhor, sempre, tem deixado o ser humano não tão somente cego quanto aos seus semelhantes, mas também temeroso de que qualquer um, ao seu lado, na rua vizinha, ou na sala à esquerda, possa estar, nesse exato momento, lhe aplicando um golpe.
Infelizmente chegou-se a um ponto onde não se pode ter certeza da honestidade ou retidão de uma pessoa com uma simples amizade. Por isso vive-se com medo, e se teme cada gesto. Mesmo amigos de longa data, conhecidos de gerações e gerações, temem seus próprios amigos. Familiares temem seus familiares. O homem instituiu a doença do medo, de temer até mesmo aqueles a quem nós devíamos confiar mais, em cada pedaço do planeta terra. Pais ensinam seus filhos a não confiar em ninguém, a sempre ficar “com um pé atrás” para tudo que lhe fizerem. Sinceramente, isso é algo que nos torna melhores? Infelizmente a humanidade, ao mesmo tempo em que tende à evolução de consciência e da razão, tende à autofagia, tende a consumir-se a si mesma pela destruição dos valores mais sagrados e tradicionais. Em determinado momento teremos que escolher: ou tomamos o caminho da ascensão plena de nossa consciência, ou nos destruímos de vez, afogados em nossa ignorância e na bolha individualista que criamos para nos proteger no mundo, mas que acabou nos destruindo célula por célula.
Vinicius" Neres

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