
Já há algum tempo que meu maior objeto de fascínio no mundo em que vivemos é o ser humano. Sem dúvida nossa espécie é fascinante, e peculiaríssima, em suas mais variadas facetas. A cada dia vejo-me mais próximo de Rotterdam, o inquestionável monge inglês, ao comprovar que a humanidade vive, há milhares de anos, absorta em um sono tranqüilo nos braços de Moria. Mas dentre tantas loucuras, situações cômicas e interessantíssimas com as quais nos deparamos em nosso dia-a-dia, sem dúvida uma das mais peculiaridades é o amor.
Não posso diferenciar aqui amor a paixão. Hoje dizer “Eu te amo” tem tanta validade quanto dizer que “Estou apaixonado por você”. Não há distinção, e não há porque fazermos distinção de duas facetas de um mesmo sentimento. Os reflexos na psique humana são os mesmos. Também não me apego aos processos químicos que envolvem tal sentimento. Sabe-se, creio, que minha pendência sempre foi maior à mente humana do que às suas fisiologias. Mas voltemos aos aspectos chaves.
Quão interessante não é um casal de apaixonados, e quão ebriante não é o amor. Ah, o amor. Lindo é ver aqueles rostos de crianças deslumbradas, tão idiotas como cães girando em torno de si para capturar suas próprias caudas! Não, não estou indignado com ninguém, nem isto foi um xingamento. Convenhamos que o termo idiota seja o chulo mais formal que se podem descrever os apaixonados. Talvez a melhor forma de chamar-lhes de “bobos-alegres”. Deslumbrante, deslumbrante. Surpreende por quem as pessoas se apaixonam, não? Confrontam-se opiniões, estilos, idéias, pelo sentimento mais nobre que o ser humano pode alcançar. Uma pena que os sentimentos sejam tão voláteis hoje. O amor une os distintos, mistura os imiscíveis, e atrai até esmo os iguais, veja só! Que outra coisa em todo o Universo pode ter esse poder?
A paixão, creio eu, não pode representar mais do que desejo. Deseja-se algo, e esse algo está relacionado à outra pessoa. Esse desejo pode ser dividido em duas estâncias: quando desejamos as sensações que aquela pessoa pode nos proporcionar, e quando desejamos a pessoa em si. Todos acham que se enquadram na segunda opção, mas a grande maioria das relações de hoje são do primeiro tipo. Isso explica a transição desenfreada de parceiros que acompanhamos hoje. Queremos o carinho que aquela pessoa nos proporciona; aquelas mãos suaves, aquele abraço sentimental, aquelas palavras ditas na hora certa... Mas pessoas são voláteis, personalidades são voláteis. Pessoas casam sem conhecer seus parceiros, crentes na imortalidade daquelas sensações. O encanto acaba no banheiro. Literalmente, meus caros. A primeira urinada de porta aberta masculina, e a primeira depilação de pernas feminina na presença do parceiro et voilat: descarga abaixo o amor.
Mas eu também seria hipócrita ao discutir casamentos sem nunca ter casado. E afinal os estereótipos são apenas para efeito cômico, e não são um retrato fiel daquilo que ocorre - convenhamos que é necessário muito mais que um banheiro para por fim à um casamento. Um pouco de exagero é sempre bem vindo para reforçar uma idéia. Mas ainda temos o grupo daqueles que se apaixonam verdadeiramente pela pessoa a qual desejam. Magnífico. Todos os defeitos desaparecem, todo o mundo é mero detalhe. Um beijinho no pescoço, algumas frases ao pé do ouvido, o ar quente da boca amada no seu rosto... E o Apocalipse pode acontecer à vontade. São estes o grupo dos relacionamentos mais duradouros: a simples presença da pessoa, um olhar apenas, estar perto... Eis que com pouco se sustenta muito. Como é interessante a criatura humana!
Mas segue-se assim o mundo. E lá estão aquele exército de zumbis deslumbrados, ofuscados pelo seu raio de sol perpétuo, seus pequenos pedaços perfeitos de carne imperfeita, mascarado na mais antiga droga conhecida pela humanidade.
Não, isso não é uma crítica meus caros, não. É um gesto de amor pelo Amor. Fico realmente deslumbrado com o Amor; realmente fascinado. É tão interessante, tão ebriante, tão imensurável... Estou eu apaixonado pelo Amor. Não é poético? Apaixonar-se é algo incrível, incrível mesmo... Mas meu amor pelo Amor ainda é um amor platônico, e muitíssimo mal correspondido. Afrodite ainda não me deu nenhuma chance, e nem um jantar á luz de velas a convenceu que sou digno de seus encantos. Bom, estou aqui, eu e meu café frio – que me esperou demais por esse texto e desistiu de reter o calor – a devanear nesse mar aberto e infinito que são os sentimentos humanos. Ainda deslumbrado...
Vinicius" Neres
P.S.: Como prova de minha boa vontade com os apaixonados, um pequeno poema em francês. Apreciem! De Paul Eluard...
LA COUBE DE TES YEUX
"La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards."

3 comentários:
Admito, caro Vinícius, que me impressionou deveras o fato de teres escolhido o "amor" para debater. Justamente ele, tão estigmatizado e vulgarizado diante dessa mídia emissora de padrões sociais. De qualquer forma, sua impassibilidade diante dos temas, sem expôr trivialmente suas ações e debates internos acerca destes, marcou o texto acima. Excelente texto, aliás.
E, realmente... há uma grande distinção entre amor e paixão, nos dicionários. Na prática, porém, esses se mesclam. Não sabemos distinguir o quê é o quê. A fusão dos processos químicos ocorrentes em nós enquanto estamos "enamorados" - a citar a liberação do hormônio ocitocina, os quais ocasionam ações não tão típicas de nós mesmos, nos causam uma enorme confusão mental, quem dirá no parceiro(a).
E é vero, uma característica a qual diferencia o ser humano dos demais animais é justamente a capacidade da prática da monogomia, causada pelos... efeitos do amor.
Enfim, a maioria das movimentações (interpessoais e em pequena escala) humanas tendem ao amor...
Já que estás em uma fase livre de preconceitos temais, sugiro que leia Carpinejar, cronista famoso atualmente dos pampas gaúchos, onde me encontro.
Passe bem,
Oi,Neres.
Junto com o ''amor'',vem muita coisa,medo,dúvida,espanto.Interessante como aquilo que te fez rir feito um completo palhaço,no começo,pode ser tão entediante depois de um tempo.Somos apenas infelizes,desesperados,alucinados por algo que nos mova,não faça crer que esse bater acelerado do nosso coração é único,como se tivéssemos nascido pra isso.Isso que eu vou falar é quase tão clichezado quanto o amor,mas sinto que somos como velhos atrás de viagra.Queremos sentir todo o tempo um frenesi em nossas vidas,voltar a experiências fantásticas...Sinto como se fossemos as cinzas de algo que já foi muito melhor,sei lá.Como se no passado imemorial fossemos semi-deuses.Não que o amor,a paixão,e o prazer fossem sentidos o tempo todo,mas eram encarados de uma forma diferente,com menos ansia,menos imaturidade.Como se o amor fosse visto com elegancia,como se ele fosse tão digno quanto aqueles que o sentiam.Bem diferente do exemplo que dei no começo,esse sentimento deve ser o dos anjos,heróis,ou qualquer criatura lendária diferente da humana.
A forma como se deve denominar um sentimento entre duas pessoas é uma coisa extremamente delicada, e hoje em dia a prioridade dos casais não é dar a verdadeira denominação ao mesmo, mas apenas dizer palavras bonitas e agradável a seu companheiro, mesmo que não sejam sinceras.. De certa forma é realmente lamentável isso.. mas enfim.. ótimo texto irmão, como todos os demais.. haha
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