Ali ele vivia. Ali ele andava. Vagava nas noites frias. Rastejava nas noites quentes. Mas ali era seu lar, o lugar onde escolheu viver, o lugar d’onde optou por ficar. Era difícil aquela vida, mas tinha seus prazeres. As noites de inverno eram aquecidas com a cachaça que passava de mão em mão na roda de mendigos. Interessante era ver aquela cena. Interessante é ver como é maior o companheirismo e a compaixão entre os que menos têm a partilhar. Ele era poliglota, falava cinco línguas. Tinha um talento indescritível nos palcos. Deixara críticos boquiabertos com sua genialidade. Extrapolava no palco, fazia daquele pequeno tablado seu mundo. Seu mundo agora era a rua, e a rua era um mundo inteiro. Nem se recordava como chegara aquele ponto. Talvez a influência de seus próprios colegas, ou a curiosidade digna da juventude áurea daqueles tempos. Sua vida era burguesa. Lera os maiores autores de línguas estrangeiras de todo o mundo. Deliciara-se com o cheiro de tinta das obras de Shakespeare, no inglês puro e original, devaneara na melancolia de Goethe lendo Werther, e Charles Baudelaire dava vida à suas noites solitárias da adolescência. O vício o pegou de surpresa. Sabia que estava exagerando, e que a cocaína não deveria ser consumida em tão grandes doses. Perdeu a linha, a concentração e a carreira artística. Tentou outras atividades, ensinar línguas, ensinar música, teatro... Mas a sua aparência de eterna ressaca desencorajava qualquer que fosse o aluno ou pai. Tentou a vida na mata, mas as crises de abstinência quase o mataram. Não suportava aqueles suores e tremedeiras. Tentou os trabalhos braçais, foi trabalhar como minerador, como pedreiro, mas os vícios do corpo e da alma consumiam-lhe cada centavo ganho e o deixavam indisposto para essas atividades. Tentou voltar à sua família, mas seu estado físico e psicológico não era mais aceitável a um ser humano. Estava só no mundo. Abrigou-se no Brasil, perto de sua terra natal. Estabeleceu-se em Porto Alegre, e lá juntou uma horda de caminhantes que ficavam estarrecidos ao vê-lo, quando já passado da linha da sobriedade, gritar frases soltas em alemão e francês. A erva que conhecera em Amsterdã, em festas que nunca imaginara participar, era agora tão comum naquele meio como a água-ardente que dividia com seus companheiros. Dormia sob as estrelas, envolto em uma caixa de papelão. Acordava somente quando o sol do meio-dia era quente e incomodativo demais. As esmolas que recebia serviam apenas para os vícios. Raramente comia, quando, em ocasiões que nem ele lembrava, davam-lhe restos de alimentos. Era um marginal. Antes aplaudido pela elite, agora era desprezado até pelos mais miseráveis. Conheceu o crack. Seu corpo frágil, já nem mais tão jovem, tão bem construído outrora, foi apunhalado e corroído, agora com uma intensidade nunca antes experimentava. Dois meses. Morreu. Parada cardiorrespiratória. Seu corpo indigente ficou esticado naquela rua durante horas. Uma multidão passou e nem sequer desviou o olhar para aquele corpo sem vida. Morrera à noite. Na tarde do dia seguinte o corpo de bombeiros foi chamado. Os companheiros mesmo acionaram a ambulância, e o sol já propiciava um odor de putrefação característico. Hoje seu nome poderia estar sendo chorado por multidões. Hoje homenagens internacionais poderiam ser prestadas. Mas nada disso seria feito. Era agora somente um marginal, um ignorado e esquecido. Indigente. Só.
Inspirado por acontecimentos autênticos.
Inspirado por acontecimentos autênticos.
Vinicius" Neres


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