"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou"
Não é a primeira vez e nem a última que essa música, Metamorfose ambulante, do Raul Seixas, me vem a mente. Especialmente esse trecho sempre me salta a mente, talvez pela semelhança com vários aspectos da minha vida, ou talvez pela simples força do significado dessas palavras. A idéia fixa de duas importantes definições de nossas vidas, o amor e o próprio ser, são dois grandes pilares da construção de nossa identidade; dois grandes questionamentos que ora ou outra nos deparamos.
O tempo nos traz a dúvida, e a esse ponto sabiamente disse Oscar Wilde quando proferiu “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. O tempo constrói em nós as incertezas daquilo que somos, e daquilo que desejamos; e de fato esta é uma benção aos buscadores da verdade. A dúvida é uma dádiva, sim, porque nos permite sempre somar e construir um pensamento mais aprofundado sobre cada coisa à que questionamos, ampliando o nosso horizonte de compreensão de um assunto determinado. Deveras já reclamei por outras vezes do quão cansativo é viver essa constante reconstrução de si mesmo, mas agora tenho algo a acrescentar à tal afirmação: com o tempo, a falta de uma definição sobre as coisas, uma flexibilidade imediata e exagerada sobre qualquer assunto, pode ter um efeito reverso daquele de estar sempre suscetível à mudança, daquele de poder ampliar sempre mais a sua visão à respeito de um assunto. Pelo contrário, o excesso de posicionamentos amorfos pode enfraquecer aquele que os detém, tornando-o fraco. São os dois lados da moeda: sim, é preciso ser flexível, é preciso estar aberto à crítica, mas também é preciso saber que uma idéia, qualquer que seja, é fruto da construção de camadas e mais camadas de conclusões. Se nunca chegamos a uma conclusão definitiva, nunca poderemos construir uma sólida base para a ampliação dessa idéia; e assim corre-se o risco que afundarmos no turbilhão da incerteza sobre tudo e todos. O mais absoluto caos.
Eis a questão. Talvez eu próprio tenha chegado ao auge da minha indefinição sobre tudo e sobre todos, e passado dos limites da autoconstrução. Parece-me que já não há bases nenhumas, que tudo que eu acreditava já não existe mais, e que nada mais se constrói. Esta metamorfose ambulante cá deste lado, ao seguir estes passos, deve estar ciente de que se nunca concluir sua metamorfose, não terá atingido seu objetivo principal. O objetivo de estar mudando é de chegar à uma mudança, e não de mudar indefinidamente para sempre.
Já estou ficando velhinho para certas coisas, de fato, principalmente para me considerar um adolescente instável que ainda busca respostas para tudo. E sobre isso, apesar de sempre o velho trecho da música acima ter me chamado a atenção para preferir ser a metamorfose ambulante do que ter “aquela velha opinião formada sobre tudo”, um outro ponto me chamou a atenção. Não necessariamente um outro trecho, mas apenas uma ampliação do anterior... Uma visão mais profunda, talvez mesmo por ocasião dessa abertura cada vez maior de minha mente para tudo. Preferir ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, sobre o que eu nem sei quem sou. Sim, vejam, aquela velha opinião formada sobre o que eu nem sei quem sou. Essa é uma daquelas ocasiões em que tudo está na nossa frente, mas a nossa cegueira inconsciente não nos permite ver. E de repente, depois de muito tempo, eu senti vontade de dizer: “chega dessa coisa de ‘eu nem sei quem sou’. Eu sou alguém, eu sempre soube que sou alguém, mas faz muito tempo que me recuso a saber quem!”. E de fato eu sou alguém, não sou? E sou alguém bem definido, e eu quero ser alguém bem definido, apesar de todas as minhas atitudes tenderem ao contrário disso.
Há muito tempo já venho insistindo com uma infinidade de pessoas naquele velho adágio do oráculo de Delfos de “homem, conhece-te a ti mesmo, e conhecerás o universo e os deuses”, e ao mesmo tempo sempre tive resistência em dizer quem eu era. Dificuldade em definir quem eu sou, mesmo que eu me conheça de uma forma magistral. A grande questão é que, mesmo depois dessa conclusão tão pessoalmente fantástica, eu ainda vou chegar ao fim de toda essa construção textual sem poder dizer quem eu sou, e tudo isso graças à essa falta de ponderação nos limites entre a metamorfose ambulante e um estado de eterno amorfismo.
A expectativa é, pois, que isso seja o limite, e não só na questão de auto-definição. Há uma necessidade mais do que urgente de eu poder ter uma definição sobre as coisas que me cercam. Diferente de outro texto que já fiz sobre o assunto, neste momento não encontro-me em mais uma crise de reconstrução, em mais um nigredo. Há algum tempo já há uma estabilidade mental deste vil ser deste lado, e este é um momento de albedo... Mas de albedo amorfo. Um albedo que, hora ou outra, permite que certos surtos de nigredo surjam, justamente pela sua falta de forma. A necessidade de forma é urgente, pois toda a grande obra, e assim não deixa de ser qualquer construção pessoal de cada ser humano, precisa chegar à um fim, mesmo que imperfeito. Só vendo a imperfeição do fim pode-se trabalhar em uma nova construção; e como já disse, há muito tempo já não vejo um fim nessa construção.
Que tal apelo sirva de lição aos buscadores desavisados: mudar é bom, é necessário, e importantíssimo. Mas aquele que arrisca viver indefinido por muito tempo corre o risco de ter o seu ser tão fragmentado e eternamente inacabado que nem sequer possa chegar a ser chamado de alguém.
Vinicius Neres


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