Não é de hoje que muita gente fica apavorada quando se fala de fim do mundo. É algo bem velho, na verdade, que se observa desde tempos imemoráveis. Talvez a coisa tenha piorado desde que nossa pobre população cristã conheceu o Apocalipse de João, e assim só a leitura daqueles trechos fazia (e faz) alguns tremerem de medo. Não importa – até porque o termo apocalipse não quer dizer “fim do mundo”, mas sim “revelações”, Revelações de João; e o próprio livro é um tratado simbólico que não vem ao caso discutirmos agora. Independente da cultura, da região do globo, do povo, sempre se falou do grande fim, e sempre se temeu esse fim. Qual seria o motivo?
O homem teme aquilo que desconhece, certamente, e isso fundamenta a base desse temor. Creio, contudo, que o buraco seja mais em baixo. O homem teme, acima de tudo, que o fim chegue e ele não possa ter feito aquilo que a sua própria consciência mandou. Teme, portanto, que o seu tempo acabe, que seus sonhos morram, e que tenha vivido em vão. Podem alguns afirmar que muitos temem o tal Juízo Final, o julgamento por todos os seus atos. Convenhamos que tal idéia se encaixa ainda na afirmação inicial: se o homem teme ser julgado por aquilo que fez, é porque sua consciência diz que o que fez foi errado. Se for isso que ouve, se é isso que sua voz interior diz, é porque fez algo contrário ao que sua consciência dizia.
Talvez o termo “consciência” tenha sido repetido demais acima, mas creia que somente se deu para que se pudesse demonstrar que tratava da mesma coisa. Chame como quiser: seu eu interior, deus interior, voz interior, alma, ego. Ouça o que tu mesmo dizes para ti mesmo. Essa voz interior é o melhor guia para a nossa caminhada, porque – mesmo que não admitamos isso – às vezes nossa racionalidade não sabe onde queremos chegar, que caminhos queremos trilhar, mas lá no fundo da nossa mente existe alguém – um eu-mesmo mais profundo – que sabe qual é o nosso objetivo. Todos os homens caminham para um mesmo destino, mesmo que por caminhos diferentes.
Rousseau, iminente iluminista francês de importância singular na Revolução Francesa nos legou uma frase que explicita exatamente isso: “A consciência nunca nos engana e é a verdadeira guia da humanidade. Ela é para a alma o que o instinto é para o corpo; quem quer que a siga persegue o caminho direto da natureza e não necessita temer estar desorientado”. Diante de tal citação, podemos nos perguntar a razão de que tantos ainda insistem em viverem retraídos em sua existência, contrariando sua consciência, se há tanto tempo já se fala nisso. A resposta é simples: medo.
Teme-se muita coisa, mas essencialmente o grande temor é a desaprovação. Vivemos em uma constante busca por aceitação, por um “alvará” para nossos atos. Tememos ser criticados, rechaçados, tememos não estarmos seguindo os caminhos corretos, tememos não estar atingindo as expectativas alheias, tememos não estar dando “conta do recado”. E o temor fundamenta-se em algo ainda mais profundo: a falta de aceitação de si mesmo. Nega-se aceitar os conselhos que nossa consciência nos dá, nega-se ouvir o que nosso coração diz, porque se nega aceitar o valor de nós mesmos, e o valor desses conselhos. Os outros são sempre os certos, os caminhos alheios são sempre os certos, os conselhos dos outros são sempre os certos.
Entretanto, se mesmo assim tu te perguntares “mas e se minha consciência disser-me que devo fazer algo de errado? Que devo roubar, matar ou enganar?”. Certamente não estará sendo guiado por si, não estará sendo guiado por sua essência verdadeira. O homem é bom por natureza; os grandes homens, os de grande evolução, foram homens bons. Foram homens e mulheres que legaram compaixão, amor e compreensão à humanidade, e constituem assim a prova que nosso caminho para a evolução deverá atingir o ponto da compreensão e aceitação não somente de si próprio, mas dos seus semelhantes. Este é o destino à que todos os caminhos da vida de cada ser humano atingem. Mesmo que distante, mesmo que utópico, essa é a tendência universal da consciência humana. Se acreditares, porém, que está sendo levado naturalmente para um caminho de desvirtuamento, certamente não estarás sendo guiado por teu ser fundamental, por tua consciência; mas sim estará ainda preso às concepções que não são tuas, guiado por uma rebeldia ou indignação cuja origem certamente será da falta de compreensão de teus semelhantes.
Por fim a gênese, ao chegarmos ao ponto em que o dragão morde a própria cauda: teme-se o fim do mundo. Uma idéia sombria atinge nossa consciência, e lá no fundo nosso ser fundamental, agonizando por ter sido durante tanto tempo ignorado e calado, nos grita: e se for verdade? E se tudo acabar sem mesmo tu ter seguido a tua própria vontade? E assim terás vivido em vão, terás sofrido em vão, guiado por caminhos que não foram teus, aproveitando-se de fórmulas prontas e ignorando a sabedoria daquele que é o mais sábio de todos os seres humanos: teu eu interior, tua consciência. Valeu tudo a pena? Só tu poderás responder, ouvindo o que tua mente te diz, sendo quem tu és. E assim conhecerás o universo e os deuses.
Vinicius Neres

