Eu já fui um psicopata. Fui, fui sim. Não digo que tenha nascido assim, ou que um trauma na primeira-infância – ou qualquer coisa que Freud explique - tenha causado tal condição. De qualquer modo fui um psicopata, e desse fato não se perca tempo discutindo do contrário. Eu decido o que fui ou não. Se um dia eu disser que fui um pelicano, pois um pelicano eu fui.
Eram tempos interessantes aqueles. Não me importava com as pessoas; eram elas apenas reles instrumentos de minha existência, como peças de um grande jogo de xadrez – meu esporte predileto – a mercê do que eu quisesse. Não havia nada de mais importante do que eu. Em síntese: era psicopata e egocêntrico. O que não tinha visto ou não lembrava não tinha acontecido, o que eu não conhecia não existia, o que eu não podia dominar não prestava. Simples assim. Confesso que a vida era mais fácil, era só sorrir, usar palavras de Cortesia e andar nos trilhos certoinhos et voilà: bem vindo a ser amado pela sociedade. Lia coisas interessantes, grandes livros de grandes pensadores... Estudava por prazer, e aprendia o que me era útil à ostentação – em resumo: tudo. Não precisava de pessoas, não precisava de ninguém. Sentimentos eram coisas tribais, animais, instintivas. Estavam longe de mim. E só precisava de mim, e só. E assim, aos 11 anos de idade, eu já desconfiava da verdade absoluta. Aos 12 tinha certeza dela.
Entretanto, certo dia, me dei conta que haviam muitas pessoas no mundo. De fato, eu estava rodeado por aqueles organismos biologicamente semelhantes a mim, mas em minha concepção tão distintos. Tinham atitudes interessantes esses seres humanos, mais até do que eu antes havia notado. Dei o braço a torcer e admiti que alguns deles até complexos eram, e que minhas teorias pura e simplesmente não os descreviam com exatidão. Alguns fugiam dos padrões, outros andavam em desalinho com tudo aquilo que havia eu postulado, e então, sem me dar conta, eu os estava observado.
E os seguia, os analisava, os observava... Às vezes até anotações fazia. Eram interessantes esses humanos. E cada pessoa que entrava em contato comigo era sistematicamente analisada, decomposta em suas minúcias, catalogada mentalmente, encaixada em um padrão comportamental. E com o passar do tempo os padrões foram se ampliando, se tornando mais complexos, suas atitudes me surpreendiam. Alguns fugiam totalmente ao meu controle, as minhas definições e as minhas premissas... Não se encaixavam em minhas falácias. Estes eram alçados a um patamar superior, ficavam em observação constante. Eram os que eu não podia dominar; não dominar seu comportamento, mas dominá-los em minha mente, conhecendo-os. Raramente errava.
E então esses, esses humanos especiais, fizeram-me compreender que talvez eles fossem parte daquilo que eu era também – que eu achava que era – e que talvez não existissem padrões para eles. Eles simplesmente existiam, e não haviam regras para eles. Eram complexos, eram incríveis... E assim, devagar, o próprio galho velho foi vergando, e minha mente foi concebendo certo conceito de igualdade. E me envolvi, me envolvi, me envolvi.
De repente eu adorava-os! Eram incríveis esses humanos. Tinham dilemas, tinham conflitos, e até raciocinavam de modo puro, cru e nu... Concebiam universos, criavam como deuses caídos, existiam como se fossem a manifestação da própria mãe Sophia. E fui mais afundo, e descobri beleza até nos pensamentos mais brutos, descobri sabedoria até nos mais ignorantes, e vi que o universo era maior do que eu concebia, era fantasticamente infinito, imensurável, intocável, harmônico e belo. E abri os braços para a humanidade.
Então, então senti, ouvi, escutei-os, e aprendi com eles. E ao sentir, ao me maravilhar, me entreguei ao seu mundo. E caminhei, caminhei, caminhei por aquela estrada desconhecida chamada humanidade; e acreditei, sinceramente, que tudo que eu sabia não servia para nada, que tudo que eu conhecia e acreditava era mero devaneio e que tudo que eu defendia era etéreo.
Mas ao sentir, senti também suas chagas. Vi que não eram sempre sinceros, que também magoavam; que mentiam descaradamente, que não se importavam uns com os outros... Vi que esses seres humanos também pisavam em seus semelhantes, que não respeitavam a sua própria diferença. Vi que colocavam seus interesses acima daquilo que acreditavam, e que usavam máscaras, diversas, centenas de milhares delas, para viver uns com os outros. Entendi que eles mesmos não se conheciam, que não sabiam o que eram, e que não viviam com conseqüências. E entendi o que era sentir medo, ansiedade, ser ignorado e desacreditado. E não quis sentir, e quis voltar ao estado primo, quis ser alheio a tudo e a todos, quis nunca mais olhar para outro alguém e ver nele algo mais do que um simples ser a se usado. Era tarde.
Quem bebe dessa fonte não volta mais à origem. Já não há mais um ser fixo, alguém que tinha opiniões concretas e estáticas, que vivia analiticamente, que pensava sistematicamente, que vivia metodicamente. Sou agora um ser humano, e tenho os defeitos dos seres humanos, e tenho as qualidades dos seres humanos, e não sei mais o que sou. Não sei quem sou, que almas tenho, em que mundo vivo e o que fui, sou ou serei. Nem sei mais se prefiro ser humano ou ser algo mecânico que era. Não sei de nada, nem sei se nada sei, ou se tudo sei, ou se o saber é mais uma mera ilusão para ostentação. Sou uma metamorfose ambulante, errante. Só mais um viajante que volta ao início da estrada.
Vinicius" Neres


1 comentários:
Que falsa estabilidade e que caos não se estabeleceria no mundo se não fossemos capazes - e mais do que isso obrigados - de mudar freneticamente?A cada humano que vi,intimamente percebo o humano que fui.
Belíssimo texto,velho amigo.
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