Estes não têm sido tempos férteis para este que vos escreve. Outros tempos já foram melhores para produzir alguma coisa que valesse a pena ser lido – ou ao menos que valesse a pena ser escrito, já que ser lido nunca foi uma das minhas prioridades. Como sempre dizia, mas já não repito há tanto tempo, escrevo para mim mesmo, como um desencargo de consciência, uma libertação de um pensamento que me atormenta. De qualquer forma, não são os pensamentos que me faltam. Esses, muito pelo contrário, ainda continuam a borbulhar e me atormentar, atormentar no bom sentido; o que me alta, isso sim, é aquele dom das musas de poder transformar isso em algo palatável. Apesar de ser lido não ser uma prioridade, a concisão e coerência de um texto são fundamentais, nem que fiquem, tais textos, só para mim. Se um texto não puder ser claro no que quer dizer, então é melhor que o pensamento permaneça pensamento, e mantenha a sua beleza original de subjetividade. E, além disso, um texto é escrito para ser lido, e assim sempre o escrevo, mesmo que não seja sua meta primeira.
Ora, pois, nem sequer um parágrafo sai ainda com tanta facilidade como outrora, mesmo que os textos antigos sejam muito mais curtos do que os mais recentes, e mesmo que eu tenha alguns guardados, na “maturação”... Esperando a velhice que lhes tornará prontos para vir à luz.
De qualquer forma, esse pensamento de falta de facilidade – de falta de inspiração, diria – tem me incomodado muito. Como já disse, não por falta de pensamentos, nem sequer por falta de vontade. Simplesmente me vejo sentado em frente ao meu teclado, criando frases e mais frases soltas, que encerram em si um pensamento todo. Um pensamento que parecia tão grande e denso, resumido em duas frases, pobre e miserável como a própria face da ignorância. Numa dessas noites, passeando por sites e blogs aleatórios, avistei um com trabalhos de artes plásticas com temas místicos, e em um post a autora dizia que estava em uma crise de inspiração. Dado isso, comentou algo que me pareceu bastante relevante: dizia ela que a inspiração necessita de sentimento, e que estamos em um mundo cada vez mais carente de tal incentivo. Nos falta sentimento. Ou talvez me falte sentimento, além da carência natural que o mundo tem nos legado.
Esses textos, arte como qualquer outra, nada mais são que a longa gestação de pensamentos que são, enfim, deficientemente como qualquer coisa que se tente passar do âmbito mental para o material, passados às palavras. Essa falta de sentimentos, essa falta de alimento à arte, funciona tal como um anticoncepcional. Exatamente como um: impede a concepção de uma nova “obra” sempre que bloqueiam a inspiração das palavras certas para tal. O que não poderia ser mais preciso na afirmação daquela artista é o mérito da causa de tal acontecimento: de fato, não falta a capacidade da emoção, nem sequer há falta de vontade nela, o que falta é conseguir encontrar uma fonte de alimentação para tal, em um mundo cada vez mais escasso de emoções.
Antes que me acusem de sentimentalismo barato, um adendo é importante: por favor, que nenhuma mente seja limitada o bastante para pensar que eu estou falando de amor, no sentido mais restrito. Não sentimos mais nada, tudo é cada vez mais automático, tudo é muito olhos, é muito pele e menos espírito...
E...
Não sei como acabar isso. Que as musas tenham piedade de mim, Dionísio! Apolo! Calíope! Piedade.
Vinicius Neres

