apparences du mérite que le mérite même"
FRANÇOIS DE LA ROCHEFOUCAULD
O que somos nós seres humanos se não um bando de animais que, em um momento que até hoje não soubemos especificar quando, resolveram que eram especiais e únicos em todo o universo, que o universo girava ao seu redor e que estava sob seu domínio. É claro, não podemos dizer que estavam completamente errados esses pré-homens: de fato de qualquer ponto que se observe do universo, ele está em expansão a partir daquele ponto. Aqui, ou há 10 milhões de anos-luz daqui, em qualquer lugar do universo, qualquer ponto é sempre o centro. Felizes?
Mas não, não nos contentamos de sermos somente o centro de tudo, queremos ser tudo, ao mesmo tempo, no mesmo espaço, e rapidamente – como se Heisenberg não nos tivesse mostrado que é impossível determinar a localização e a velocidade de um elétron ao mesmo tempo. Máscaras. Vivemos em uma sociedade que vive como se sua própria existência fosse um carnaval veneziano, em que a melhor fantasia ganhará a vida eterna. Um universo, nosso universo, que foi concebido para existir pela aparência. Somos atores, uns melhores, outros piores, construindo status, imagens, vestindo fantasias de nossas próprias ilusões, para enganarmos nós mesmos, nos olhando no espelho e reconhecendo outros em nossos lugares. São outros nós. São nós, outros.
Já basta de firulas descritivas de sociedade “em que mais importa ter do que ser”. Ou, como um conceito aperfeiçoado “que mais importa parecer do que ser”. Não precisamos disso. Eu sei disso, você sabe disso, aquele mendigo da rodoviária sabe disso, e com certeza absoluta qualquer taxista sabe disso – e de qualquer outra coisa que se possa saber. Mas não basta. Isso é papo de mensagem de auto-ajuda, de palestras motivacionais de gente sem talento. Vivencie isso. Sinta isso, veja, ouça e toque. Ninguém quer mais nada a não ser parecer o ser humano mais extraordinário do universo conhecido, e não quer fazer nada para isso. Queremos simplesmente ser, ser, ser, parecer muito mais, e ser. Fazer algo para isso, ou pensar sequer em cogitar a possibilidade de atuar ativamente para a transformação de algo que o torne verdadeiramente aquilo que se busca. Nada!
Não podemos dizer, somente, que tais fatos não nos surpreendam. Em sociedades em que os próprios conceitos são escarrados e cuspidos das bocas como se fossem, nada mais nada menos, do que algum lixo moral cuja tentativa falha de ser implantada nas mentes de cada unidade pensante de nossa sociedade não passasse de uma brincadeirinha de encaixar a forma certa no seu respectivo buraco – a lá educação infantil. Em uma sociedade em que os méritos não são dados a aqueles que os merecem, em que a artimanha e a esperteza são muitíssimo mais valorizadas em detrimento da humildade e da honestidade, em que a falta de ética, o “jeitinho” e a influência é milhares de vezes mais respeitadas do que um serviço bem feito. Humanos.
Quer-se opinar, mostrar superioridade, e com toda a empáfia do mundo queremos julgar o universo como se fossemos donos deles. Queremos ser deuses, criadores. Queremos ser imperadores no universo, ou ao menos imperadores de nosso mundinho de influência porca... Onde não se dá valor ao sangue derramado, ao soldado ferido, ou a batalha ganha, mas só se exalta a esperteza do general, que nem para o campo de batalha foi, mas cuja fama se espalha pelos quatro nortes e cuja riqueza – resultado da guerra que custou muitas vidas – ofuscou os olhos de seus admiradores. Pobres humanos: tão deuses querem ser, mas tão símios ainda arrastam-se em sua própria existência.
Vinicius" Neres
