Estava parado na esquina. Parado. Só parado. Esperando. O vento me desarrumava os cabelos e sentia um leve frio passeando por meu rosto. Nada incomum. Um dia comum, um lugar comum, um espaço comum. Uma espera comum. Nada ao redor, nenhum barulho sequer o do vento que soprava leve naquele fim de tarde. O céu cinzento, raramente um carro passava por aquela esquina. E lá me encontrava, sentindo o vento, apreciando o clima agradavelmente fresco. Um frio suportável, diria até apreciado, cá onde resido. De repente passos. Passos suaves. Não olhei para o lado, não sai do meu mundinho. Passos de paço imperial. Alguém se aproximava na calçada, alguém que, como eu, talvez estivesse passando por ali somente, vindo de alguma padaria próxima, de algum mercadinho próximo... Alguém comum. Aleatório. Ainda sentia o vento em meu rosto. Virei o rosto em direção aos passos. Vi. Não somente vi como fui visto. Nossos olhares se cruzaram, nossos olhares se fixaram. Olhos verdes, verdíssimos, fixos em meus olhos. Não um olhar qualquer. Um olhar daqueles em que sentimos os olhos do outro na mais profunda estância de nossa alma.
Assim de fato me senti. Senti aqueles olhos lá no interior de minha mente, como se fitassem o vazio completo que me passava pela cabeça naquela hora. Nenhum pensamento, nenhuma idéia. Somente um olhar secando-me a alma. Aqueles olhos verdes. Os olhos desviaram uma parcela de segundo para o chão, e depois se voltaram para os meus novamente. Os meus continuaram fixos. Fitando aquele olhar, fitando aquele olhar como se da mesma forma pudesse ver a própria alma daqueles olhos... Naquele vazio.
Não durou mais do que alguns segundos. Não durou nem sequer cinco segundos. Pareceu... Bom, não pareceu nada. Só passou. O tempo não parou, o tempo não passou mais devagar... Passou. Voltei meus olhos para dentro de mim mesmo. E pensei. Sim, inundei minha cabeça de pensamentos. O que teriam aqueles olhos pensado ao fitar os meus? Meus olhos, maciços. Tão negros que mal se diferenciam as íris das pupilas. Negros. Ébano. Verde. Sentiriam aqueles olhos a mesma profundidade que senti naquele olhar. Ou eu, ali preso ao meu próprio sentir, também me fechei completamente ao mundo?
Nessa história não há começo nem fim. Só a própria história. Não há o que dizer, não há o que concluir. Somente refletir. Somente viver, continuar vivendo, sentindo o vento no rosto, sentindo olhos nos seus.
Vinicius" Neres
P.S.: Me surpreendi com a foto. O olhar não era tão profundo assim como esse, mas vale o superlativo. A beleza está nos detalhes. (:
